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Cansaço materno: por que ele não tem a ver apenas com falta de rede de apoio?

  • Foto do escritor: Aline Antunes
    Aline Antunes
  • há 11 horas
  • 4 min de leitura

Quando uma mulher se torna mãe, é comum que o cansaço apareça como uma consequência natural da nova rotina.


Noites interrompidas, amamentação, cuidados com o bebê, tarefas domésticas, trabalho, compromissos e a necessidade constante de estar disponível fazem parte da realidade de muitas mães.


Por isso, quando uma mulher diz “estou exausta”, a primeira explicação costuma ser a falta de descanso ou de rede de apoio.


Esses fatores são, sem dúvida, importantes.


Mas existe uma dimensão da maternidade que ainda é pouco conhecida: o cérebro da mulher também passa por um processo profundo de transformação.


O cérebro também muda durante a maternidade


A gestação e o período pós-parto são acompanhados por importantes alterações neurobiológicas.


Pesquisas recentes utilizando técnicas de neuroimagem identificaram mudanças em diferentes aspectos da estrutura e do funcionamento cerebral durante a gestação e após o nascimento do bebê, incluindo alterações na massa cinzenta, no córtex, na substância branca e na conectividade entre regiões cerebrais.


Isso não significa que o cérebro simplesmente “fica maior”.


Na verdade, os estudos apontam para um processo complexo de neuroplasticidade e reorganização cerebral.


Ou seja: o cérebro adulto se modifica diante das novas demandas da maternidade.


E essa transformação pode ajudar a compreender por que algumas mulheres descrevem a sensação de que, depois de se tornarem mães, “não são mais as mesmas”.


O que é neuroplasticidade?


Neuroplasticidade é a capacidade do sistema nervoso de se modificar em resposta às experiências, ao aprendizado e às demandas do ambiente.


A maternidade é uma experiência de enorme intensidade.


De repente, existe uma outra pessoa que depende da mãe para praticamente tudo.


É preciso aprender a interpretar choros, expressões, movimentos e necessidades. É necessário desenvolver novas formas de atenção, cuidado, vínculo e proteção.


Ao mesmo tempo, a mulher continua sendo profissional, companheira, filha, amiga e indivíduo com desejos e necessidades próprias.


Portanto, a transição para a maternidade não representa apenas uma mudança de rotina.


É também uma mudança de funcionamento e organização.


Por que isso pode estar relacionado ao cansaço?


É importante não simplificar a relação entre cérebro e cansaço materno.


Não podemos afirmar que uma mãe está cansada simplesmente porque seu cérebro está “fazendo mais sinapses”.


O cansaço materno é multifatorial.


Ele pode envolver privação de sono, sobrecarga de tarefas, alterações hormonais, demandas emocionais, carga mental, dificuldades no relacionamento, trabalho, condições financeiras, ausência de suporte e questões de saúde mental.


Mas existe também o esforço contínuo de adaptação a uma nova realidade.


A mulher precisa responder repetidamente a estímulos e demandas, muitas vezes sem períodos suficientes de recuperação.


É possível pensar, portanto, que a experiência materna envolve não apenas fazer mais, mas também processar mais.


A carga mental da maternidade


Existe uma diferença importante entre a quantidade de tarefas e a quantidade de coisas que uma mulher precisa manter mentalmente em funcionamento.


Não é apenas preparar o jantar.


É lembrar que determinada comida acabou.


Não é apenas levar o filho ao pediatra.


É lembrar de marcar a consulta, verificar o horário, organizar o transporte e lembrar da próxima consulta.


Não é apenas acompanhar a escola.


É lembrar das atividades, dos materiais, dos comunicados, das datas e das necessidades da criança.


Essa dimensão é frequentemente chamada de carga mental ou carga cognitiva materna.


E ela pode contribuir significativamente para a sensação de estar permanentemente ocupada, mesmo quando o corpo finalmente para.


“Eu amo ser mãe, mas sinto que alguma coisa em mim mudou”


Essa frase merece atenção.


Porque uma mulher pode amar profundamente seu filho e, ao mesmo tempo, sentir falta da mulher que era antes.


Pode sentir falta da liberdade, da espontaneidade, da carreira, do corpo, dos relacionamentos, do silêncio ou simplesmente de ter algum tempo em que ninguém precise dela.


Isso não significa falta de amor.


A maternidade pode envolver uma profunda reorganização da identidade.


A mulher não deixa de ser quem era, mas precisa encontrar uma maneira de integrar essa nova experiência àquilo que já existia nela.


É justamente por isso que falar apenas em “rede de apoio” pode ser insuficiente.


A rede de apoio é fundamental. Mas precisamos olhar também para a mulher que está atravessando essa transformação.


Quando o cansaço merece atenção?


Nem todo cansaço materno significa um problema psicológico.


Cuidar de um bebê é realmente exigente.


Mas quando o cansaço se torna persistente e vem acompanhado de tristeza frequente, irritabilidade intensa, ansiedade, culpa excessiva, perda de prazer, sensação de incapacidade, isolamento ou dificuldade de se reconhecer na própria vida, é importante olhar para isso com cuidado.


A pergunta não precisa ser apenas:


“Quem pode me ajudar mais?”


Também pode ser:


“O que está acontecendo comigo nessa nova fase da minha vida?”


Essa pergunta abre espaço para compreender não apenas a rotina da mãe, mas também suas emoções, sua identidade, seus relacionamentos e as transformações que está vivendo.


A maternidade transforma a rotina.


Transforma os relacionamentos.


Transforma a identidade.


E transforma também o cérebro.


Compreender essas mudanças não significa romantizar o sofrimento materno. Significa ampliar nosso olhar para que a mulher não seja reduzida àquilo que consegue ou não consegue dar conta.


Referências científicas


Pritschet, L. et al. (2024). Neuroanatomical changes observed over the course of a human pregnancy. Nature Neuroscience.


Paternina-Die, M. et al. (2024). Women’s neuroplasticity during gestation, childbirth and postpartum. Nature Neuroscience.


Pregnancy entails a U-shaped trajectory in human brain structure linked to hormones and maternal attachment (2025). Nature Communications.

 
 
 

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